|



|

ENTREVISTA:
Gizele de Souza
Alice Duarte
 |
Ela
defende um trabalho que possa construir uma identidade para a educação
infantil, respeitando a especificidade que a área exige e não submetendo
as crianças de 0 a 6 anos aos ditames de um modelo autoritário de
ensino. Gizele de Souza é professora do Setor de Educação da UFPR
e doutoranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História,
política, Sociedade da PUC/SP. Atualmente ela dá aulas na UFPR e trabalha
como consultora de educação infantil junto à Secretaria Estadual de
Educa- |
ção. Em entrevista
a este informativo, Gizele alerta para a ausência de uma política para a
área: "O que temos são apenas programas".
Quais
são os desafios que estão sendo colocados hoje para a Educação Infantil?
São muitos. Destaco, dentre eles, a integração da educação infantil ao sistema
educacional. A integração tem sido interpretada e implementada apenas como
'repasse' de responsabilidade da assistência para a educação. Em vários
municípios deste país, a educação infantil já se encontra sob a responsabilidade
da educação e problemas graves estão ocorrendo, como redução do período
integral da creche, escolarização antecipada da educação infantil, ausência
de gestão compartilhada e participativa com outros setores (como o da Assistência,
que produziu história nesta área, da Saúde, e das famílias). Outro problema
é a organização dos espaços e da rotina na educação infantil sem atender
as especificidades desta área. Os desafios estão em integrar a educação
infantil ao sistema sem desconsiderar a história já construída nesta área
e também construir propostas pedagógicas que considerem a especificidade
da educação infantil (cuidar/educar). Além disso, é necessário criar propostas
de formação de professores de Educação Infantil que atendam as particularidades
do trabalho com crianças de 0 a 6 anos. É preciso aplicar imediatamente
os recursos já disponíveis para os Centros de Educação Infantil e lutar
por formas de financiamento público que considere toda a etapa da educação
infantil, como o projeto do FUNDEB.
Como
você está vendo o desenvolvimento da política de Educação Infantil no
governo federal e estadual?
No
plano federal, preocupante. Assisto com preocupação a divulgação dos programas
do governo federal para a educação infantil. Os mais perigosos correspondem
ao 'Bolsa Primeira Infância' e a inclusão dos 6 anos para o ensino fundamental.
O problema que antecede a todos é a ausência de uma política para a Educação
Infantil e o que temos são apenas programas. Em relação ao primeiro, considero
que se for implantado constituirá no maior retrocesso da educação infantil
brasileira. A proposta do governo federal, como está, representa uma versão
atualizada dos famigerados programas assistencialistas e discriminatórios,
como o conhecido 'mãe crecheira'. Ele ratifica a concepção pejorativa
que perdurou na história, que a responsabilidade com a criança pequena
era exclusivamente da mulher. Com relação ao programa de antecipação dos
6 anos ao ensino fundamental, não há consenso entre os pesquisadores da
área. Eu sou contrária a esta proposta. Mas o que me preocupa, é o fato
do governo federal apresentar este programa sem uma discussão cuidadosa
e coletiva sobre os impactos que isto geraria para a educação infantil.
A educação infantil tem uma especificidade a cumprir e a articulação com
o ensino fundamental não corresponde a sobreposição de um nível a outro.
Um aspecto positivo é que o governo federal deverá liberar verbas para
construção e reforma dos CEIs nos municípios. A principal dica é apropriar-se
dos estudos já existentes sobre arquitetura e espaço para educação infantil,
respeitando os direitos fundamentais das crianças pequenas. Ainda no plano
federal, recebo de forma otimista os resultados da audiência pública sobre
educação infantil com o Ministro da Educação no dia 17 de junho em Brasília,
com a participação do MIEIB (Movimento Interfóruns de Educação Infantil
do Brasil), do qual faz parte o GTEI/Pr (Grupo de Trabalho de Educação
Infantil de Curitiba e Região Metropolitana, vinculado ao Fórum Paranaense).
O Ministro da Educação assumiu ser este movimento social, o MIEIB, o interlocutor
legítimo do ministério com a sociedade civil. Outro aspecto positivo é
a formação de um 'Comitê Consultivo Permanente de Educação Infantil' na
esfera federal. Isto significa que os fóruns de educação infantil de vários
estados da federação terão voz ativa, definindo os rumos desta área. No
plano estadual, encontro-me com certo otimismo. Verifico uma disposição
em recuperar o papel do Estado na elaboração e implementação de políticas
que priorizem o atendimento das crianças em rede pública, com fonte e
gestão públicas. Obviamente, não será fácil priorizar a área, mas creio
que será possível por meio de muita negociação política. A equipe da SEED
deverá ter habilidade para apreender as reivindicações que os núcleos
regionais, municípios, professores e crianças apresentem.
Você
tem conhecimento de iniciativas que deram certo em outros estados brasileiros
e em outros países?
Experiências interessantes já estão sendo realizadas no Brasil e no exterior.
No Brasil, o próprio MEC, por volta de 1994, já produziu materiais importantes
para a área, como vídeos, diretrizes, sínteses bibliográficas e documentação
sobre variados temas. Temos vários municípios que estão seriamente comprometidos
com o trabalho de educação infantil e estão produzindo boas experiências.
No exterior, existem experiências importantes como a dos países escandinavos
e da Itália. Tive a oportunidade de conhecer de perto as experiências
italianas. Há um projeto cultural que inclui a educação infantil, portanto
não é apenas um projeto político-pedagógico da escola, mas um projeto
de cidade que contempla e garante espaços para as crianças pequenas. A
proposta italiana é conhecida como a 'Pedagogia do Espaço', levando em
conta os direitos fundamentais das crianças e suas famílias. O ideal é
que a organização dos espaços não seja uma empreitada meramente estética,
mas que componha um projeto educativo para a educação infantil.
Qual seria o avanço mais importante nesta área?
Que o trabalho desenvolvido em cada canto deste estado possa construir
uma identidade para a educação infantil que respeite a especificidade
que a área exige e não submeta esta faixa etária aos ditames de um modelo
autoritário de educação. É preciso ver as famílias e a comunidade como
parceiras de um projeto formativo da criança e da instituição e, principalmente,
que torne as crianças mais felizes, porque assim respeitadas serão.
Qual o principal obstáculo para a Educação Infantil no Paraná?
Entendo que os obstáculos são distintos para cada região do estado, dependendo
das condições sócio-econômicas dos municípios e da composição política.
Identifico que atualmente temos problemas de âmbito nacional que repercutem
na esfera local. O Paraná não está fora de dificuldades como escassez
de recursos para a educação infantil, dificuldades de implantação de cursos
de formação para os profissionais que atuam de 0 a 6 anos e dificuldades
na implementação de políticas integradas de educação infantil (envolvendo
a participação da área da Assistência, Saúde e Trabalho).
Como
pensar num modelo de Educação Infantil dentro do panorama contemporâneo,
considerando o avanço tecnológico e midiático?
Entendo que qualquer proposta para a área deve ser pensada como um projeto
cultural e educativo, que assuma o enfrentamento de conflitos e tensões
latentes na sociedade contemporânea. Avalio que gestores, políticos, professores
não podem se eximir de discutir e pensar alternativas para questões como
relações raciais, relações de gênero e etárias. Estas questões devem pautar
os debates sobre as propostas pedagógicas, sobre os cursos de formação
e sobre os materiais didáticos. ______________________________________________________________________
Leia
também:
Entrevista:
Pedro Ivo fala sobre a CPI do Banestado.

|
|